
Mas, que os lógicos me perdoem: eu não concordo que o último dia de cada ano seja o último. E não acredito que o primeiro dia de cada ano seja o primeiro. Prefiro embarcar na aventura ilógica da anarquia atemporal e nela me deixar conduzir a todas as possibilidades de viver livre da ditadura do relógio, do calendário, do movimento das marés e das cirandas lunares.
Pois é, bem anárquico - quem sabe, irracional - este despropositado desejo de voar à margem das regras lineares que determinam como amar, ganhar, perder, chorar, sorrir, ver, não ver, pensar, esquecer, lembrar e, principalmente, consumir.
Se não pago o preço que me cobra a dor de amizades ou de amores envolvidos pela penumbra das frustrações, perco o crédito às lágrimas que me humanizam. E perco também as asas com que anseio vagar e divagar no espaço sem pontos de partida ou de chegada, sem semáforos e sem ticket-refeição, nem cadeiras numerada, nem ordem de chegada.
Fincar um pé no último dia do ano que termina e avançar outro sobre o dia do ano que começa não é, definitivamente, o caminhar que desejo.
Eu quero meus dois pés no mundo, mas sem pisá-lo. Dois pés descalços, braços abertos e a alma nua. Eu quero caminhar, seguir adiante com o tempo de rédea solta, animal indócil, nuvem imprevisível, beijo roubado em rimas imperfeitas.
Os dias não envelhecem. Sigamo-los. E não envelheceremos também. Sejamos semente, árvore e frutos, sombra e oxigênio, brisa e procela.
Completemo-nos nas nossas imperfeições, desfraldados os pendões da humildade, do perdão, da tolerância, da boa-vontade, da generosidade, do abraço, da gentileza, do amor.
Os dias não envelhecem e neles está latente o sentido de nossa existência miraculosa, neles se renova o sopro da verdade em um riso de criança e se recompõe a obra fascinante da Vida.
Os dias não envelhecem porque são fecundados pela única fonte da juventude: a crença de que é possível ser feliz.
Felizes dias!